Como surgem as crenças?

As pessoas normalmente exigem que respeitem as suas crenças, por muito irracionais que sejam. Muitas vezes confunde-se as crenças com a essência e dignidade da pessoa, com os seus fundamentos espirituais, morais e ideológicos, quando na realidade se poderia estar continuamente a mudar de fé (como resultado da evolução, aprendendo novas coisas, confrontando aquilo que se considera indiscutível). Por isso, as crenças, como passageiras, tão pouco deveriam ter algo a ver com a pessoa.

Uma pessoa com crenças imutáveis simplesmente é uma pessoa relutante a pensar sobre as suas crenças e sobre si mesmo. Será que este comportamento não tornará as suas crenças menos respeitáveis? As suas crenças e não a sua pessoa: as crenças não são ou não deveriam ser as pessoas. (Obviamente, cada um pode crer no que quer, mas se expressa publicamente as suas crenças deverá assumir que estas poderão vir a ser criticadas ou questionadas).

O problema reside no facto das pessoas não admitirem ou lhes custar a admitir que as crenças apenas são fruto de casualidades, não de pensamento intelectual de alto nível.

Também, quando alguém decide que algo é verdade, o seu cérebro tende a conceber novas razões para reforçar a crença. Diversas experiências colocaram em evidência esta tendência inata do cérebro, como por exemplo a realizada pelo psicólogo Gary Marcus, onde metade de um grupo de pessoas leu um relatório de um estudo que demonstrava que as aptidões para trabalhar como bombeiro estavam relacionadas com uma pontuação elevada conseguida numa escala de capacidade para assumir riscos.

A outra metade do grupo leu o contrário: foi-lhes indicado que um estudo demonstrava que as aptidões para trabalhar como bombeiro tinham uma correlação negativa com a capacidade para assumir riscos, ou seja, que os propensos a assumir riscos eram maus bombeiros.

De seguida, subdividiu-se outra vez cada grupo. A alguns foi-lhes pedido que reflectissem sobre o que haviam lido e que anotassem as razões pelas quais o estudo em questão podia ter dado esse resultados; e os outros simplesmente foram mantidos ocupados com uma série de complicados quebra cabeças geométricos como os realizados em testes de QI.

A parte interessante da experiência foi quando se comunicou a todos que o estudo que haviam lido na primeira parte da experiência era falso: os investigadores tinham inventado os dados. Então foi-lhes perguntado o que realmente pensavam sobre o tema. Existiria realmente uma correlação entre a aptidão para trabalhar como bombeiro e a capacidade para assumir riscos?

Mesmo após terem sido informados que os resultados do estudo eram mentiras, as pessoas dos subgrupos que tiveram a ocasião para reflectir (e criar as suas próprias explicações) continuaram a acreditar no que haviam lido inicialmente. Em suma, se for dada a oportunidade a alguém de inventar as suas próprias razões para acreditar em algo, ela realmente começa a acreditar, mesmo quando a prova original for desacreditada completamente..

Ou seja, se todos fossemos completa e absolutamente racionais, apenas acreditaríamos em coisas que são verdadeiras, passando invariavelmente de premissas verdadeiras a conclusões verdadeiras. No entanto, todos tendemos a fazer precisamente o contrário: partindo de uma conclusão, procuramos razões para acreditar nela.

E quando se diz todos, não me refiro apenas aos livros sagrados, pois mesmo entre os cientistas mais reputados, se assiste a situações similares, que se agarram com unhas e dentes às suas conclusões, por muito que outros cientistas lhes mostrem provas em contrário das mesmas.

Contudo, como é possível que as crenças sejam tão poderosas para o ser humano? Porque se mata pela fé? Serão por acaso as crenças como vírus para o cérebro?

Via | Kluge de Gary Marcus

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