Aves recuperadas voltam à natureza

O Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS), uma estrutura do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), com sede em Gouveia, prepara-se para devolver aos céus de março quatro aves migratórias. Dois milhafres-pretos (Milvus migrans), uma águia-calçada (Aquila pennata) e uma cegonha-branca (Ciconia ciconia) têm alta ainda este mês para poderem juntar-se aos seus semelhantes, que estão a regressar de África. Coimbra, Gouveia e o Crato foram os locais escolhidos para as libertações.

Com a primavera, chegam os chilreados, os grasnidos e os crocitares noturnos de aves como o mocho-d’orelhas (Otus scops), a mais pequena ave de rapina existente em Portugal.

A equipa do CERVAS, dirigida pelo veterinário Ricardo Brandão, tem ao seu cuidado um mocho-d’orelhas “irrecuperável”, a única ave migratória hospedada no centro que não irá ser libertada; com pouco mais de quinze centímetros e um olhar atento, chegou com uma fratura no pulso que o impede de voar. O seu à-vontade perante a minha máquina fotográfica revela os cinco anos de estada que já leva, em centros de recuperação de Lisboa e de Vila Nova de Gaia.

Uma vez que está incapacitado de sobreviver no estado bravio, este insetívoro é um importante anfitrião de outros mochos-d’orelhas que possam chegar, otimizando os seus processos de recuperação: “Tranquiliza-os, ensina-os a comer e diminui-lhes o stress causado pelo cativeiro”, explica o veterinário.

Muitos mochos-d’orelhas já chegaram a território nacional e outros se adivinham, mas não se deixam avistar facilmente: vivem nos troncos das árvores da floresta, pesam, em média (em adultos), uns módicos noventa gramas e, tal como a maioria dos membros da sua família, raramente se vêem durante o dia. A melhor pista para os localizar é atentar no seu canto monótono, que repetem de três em três segundos durante horas a fio (não confundir com o coaxar do sapo-parteiro, Alytes obstetricans, que é extremamente parecido).

Milhafres em cativeiro

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Bastante mais conspícuo e com bico de poucos amigos, o mais velho dos dois milhafres-pretos albergados no CERVAS foi preparado para o exame de rotina; é pesado e tateado, e as penas cujo estado seja preocupante são mergulhadas em água muito quente, pois o calor rearranja a estrutura da pena.

Este exemplar foi apreendido em 2010, pelas autoridades locais, a um particular que o mantinha em cativeiro; chegou com lesões numa das asas e este é o primeiro período migratório em que está fisicamente apto a ser devolvido ao seu habitat natural.

O mais novo, recolhido em 2011 pela GNR, em Ponte de Sor, era mantido em cativeiro por uma família local. “Segundo a ficha das autoridades que entregaram o animal, estava preso e tinha anilhas com o símbolo do Benfica”, explica Ricardo Brandão. No entanto, “é ilegal capturar e manter as aves em cativeiro”, sob pena de colocar em risco a sustentabilidade da espécie.

Tal como o seu congénere, será libertado em Coimbra na Mata Nacional do Choupal, onde existe uma das maiores colónias desta espécie em Portugal. Esta espécie visita o território nacional de março a setembro e é usual vê-la a pairar ao longo das estradas ou em linhas de água.

Os dois milhafres são mantidos no “túnel de voo”, uma gaiola gigante onde retomam alguma liberdade de movimentos, podendo exibir as suas caudas bifurcadas: “É importante que, antes de serem libertadas, as aves tenham recuperado de todas as lesões e que desenvolvam o músculo peitoral que reveste a quilha, a estrutura óssea que se equipara ao nosso esterno.”

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As fases da águia

Os mais distraídos podem confundir facilmente o milhafre-preto com a águia-calçada; para o evitar, basta verificar se a cauda não é bifurcada, como nos milhafres. As águias-calçadas passeiam-se nos ventos de março a setembro; vêm de África e voam pelo Algarve, subindo até ao Ribatejo e às Beiras, onde fazem as delícias dos amantes de aves selvagens.

Existem águias-calçadas de fase clara e de fase escura. As primeiras têm plumagem preta e branca com um forte contraste nas partes inferiores, tornando-as fáceis de identificar. As de fase escura são totalmente castanhas e distinguem-se pela existência das chamadas “luzes de aterragem”, dois pontos brancos, um de cada lado do pescoço, voltados para a frente.

O macho que o CERVAS tem em recuperação desde o ano passado foi encontrado ferido na zona da Guarda, num parque eólico: “Pensa-se que tenha embatido contra uma das pás de um gerador”, diz Ricardo Brandão. “Chegou até nós com hemorragias na câmara anterior de um dos olhos.” A águia-calçada alimenta-se de coelhos, ratos e outras aves de pequeno porte. Depois de confirmado que o problema na visão não afeta a sua capacidade de caçar, foi-lhe assinado o visto que o conduzirá à emancipação em Gouveia.

A cegonha e os padrinhos

O mesmo final feliz terá a cegonha-branca recolhida no Crato, que se encontra em fase final de recuperação da lesão consolidada na asa direita. O animal chegou ao CERVAS com três dedos numa das patas, ao invés de quatro, mas isso não parece afetar minimamente a sua boa-disposição e a sua recuperação. Pelo sim, pelo não, como se vê na foto, é melhor segurar-lhe o bico!

A cegonha será devolvida à zona de Portalegre: “Sempre que possível, desde que seja favorável para os animais e que a logística o permita, libertamo-los no local onde foram encontrados. Tentamos sempre que os padrinhos  também estejam presentes e façam a libertação; é uma maneira de os homenagear pelo carinho prestado”, explica Ricardo Brandão.

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De facto, é possível apadrinhar uma ou mais das aves selvagens que se encontram em recuperação no CERVAS. Este apadrinhamento consiste em contribuir com um valor monetário estabelecido de modo a sustentar as necessidades que esse animal, em particular, venha a desenvolver até à libertação. Os padrinhos são os indivíduos que assumem esse compromisso e que devolverão o animal ao seu habitat. Mais informações em www.cervas-aldeia.blogspot.com.

Despedi-me com a certeza de que iria voltar, meti-me no carro e dei por mim a saber o céu mais cheio. Nos dias 14 e 15 de Abril, o CERVAS irá promover um curso de Iniciação ao Estudo e Identificação de Aves sobre as mais comuns da Serra da Estrela. Quem não puder acompanhar esta atividade tem uma boa alternativa em www.avesdeportugal.info. Mesmo em casa, pode descobrir um mundo novo!

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